A indústria da mineração nacional deve passar por uma mudança de perfil nos próximos anos, não mais com grandes aportes em projetos greenfield (novos), mas com investimentos focados na manutenção das operações e em novas tecnologias, capazes de gerar ganhos de produtividade. A projeção foi feita pelo ex-presidente da Vale Wilson Nélio Brumer, ontem, durante evento promovido pelo Departamento Mineral do Instituto dos Advogados de Minas Gerais (Iamg), em Belo Horizonte.

“Temos hoje um excesso de capacidade produtiva no setor de mineração. Ao mesmo tempo, os preços (das commodities minerais) estão lá em baixo e muitos projetos parados. Vamos ver um mudança de perfil nos próximos anos, com investimentos não mais no crescimento da produção, mas na manutenção da atividade minerária”, analisou Brumer.

Só para se ter uma ideia, conforme Brumer, os investimentos das grandes mineradoras no País chegaram a passar da casa dos US$ 100 bilhões entre 2011 e 2013, batendo em US$ 136 bilhões em 2012, por exemplo. Naquela época, o cenário era diferente, com preços bem atrativos e a China em plena pujança da demanda pelo minério de ferro brasileiro e especialmente mineiro.

Para este ano, a projeção do especialista para as inversões das principais mineradoras no País é de US$ 50 bilhões, caindo para US$ 47 bilhões em 2017 e US$ 45 bilhões em 2018. Outro problema, para Brumer, é a concentração da atividade mineral nacional no minério de ferro, o que pode comprometer a produção de outros minerais.

Para Brumer, a mineração brasileira passa por um “apagão” e tem, necessariamente, que passar por um “novo pensar”. Dentro dessa nova perspectiva, o ex-presidente da vale acredita na permanência da pressão sobre os preços dos minerais, na queda de qualidade de novas reservas, na crescente demanda ambiental e na tendência de investir em produtividade, o que deve trazer novas tecnologias para o setor.

“A projeção para os preços das commodities minerais para os próximos anos, especialmente do minério de ferro, não é para deixar ninguém feliz. Além disso, não existe empresa competitiva dentro de um país que não é competitivo. O Brasil é competitivo do portão da fábrica para dentro, mas de dentro para fora não”, criticou Brumer.

Para exemplificar o “atraso” do Brasil, Bumer, que também foi presidente da Usinas Siderúrgicas de Minas Gerais S/A (Usiminas), lembrou do crescimento tímido da produção nacional de aço nas últimas décadas. Segundo ele, o Brasil tinha uma capacidade da ordem de 25 milhões de toneladas de aço no início dos anos 90. Hoje, o País pode produzir até 48,8 milhões de toneladas de aço bruto, segundo o Instituto Aço Brasil (IABr).

Enquanto isso, a China, que tinha uma capacidade instalada equivalente à brasileira no começo da década de 90, saltou para algo próximo de 900 milhões de toneladas de aço ao ano atualmente, praticamente 20 vezes o volume do Brasil.

Novo código – Brumer também criticou a demora para a aprovação na nova legislação do setor, que entre idas e vindas ao Congresso, já se discute os termos há cerca de 10 anos e nada foi definido. “Bem ou mal, tínhamos um código e aí veio a discussão sobre o novo marco. Porém, abriu-se essa discussão, mas ela continua aberta. Criamos um problema sério porque a segurança jurídica para o investidor é zero”, lamentou.

Brumer avalia o possível desmembramento da cobrança da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (Cfem) do restante do texto do Novo Código Mineral como ineficaz para resolver o problema. “Não sei se o melhor caminho é desmembrar a Cfem. O problema já está criado. Acho que é hora disso andar para a frente”, disse.

Fonte: Diário do Comércio (MG)

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